Mostrando postagens com marcador Opinião Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Opinião Livros. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

[Opinião Livros] Quem Quer Ser Bilionário, de Vikas Swarup


Quem Quer Ser Bilionário
Vikas Swarup


Editora: Edições ASA
N.º de páginas: 295
Edição/Reimpressão: 2006

Sinopse: Por que está Ram, um pobre empregado de mesa de Bombaim, na prisão?
a) Esmurrou um cliente
b) Bebeu demasiado whisky
c) Roubou dinheiro da caixa
d) É o vencedor do maior prémio de sempre de um concurso televisivo
A resposta certa é a alínea d).
Ram foi preso por responder correctamente às doze perguntas do concurso televisivo Quem Quer Ser Bilionário?.
Porque um pobre órfão que nunca leu um jornal ou foi à escola não pode saber qual é o mais pequeno planeta do sistema solar ou o título das peças de Shakespeare. A não ser que tenha feito batota.
Mas a verdade é que foi a própria vida a fornecer-lhe as respostas certas às dozes perguntas cruciais. Desde o dia em que foi descoberto num caixote do lixo que Ram revela instintos de sobrevivência infalíveis e aparatosamente criativos. Espantando uma audiência de milhões, serve-se dos seus conhecimentos de rua para arranjar respostas não só para o concurso televisivo mas também para a própria vida.
Na história do jovem Ram concentra-se toda a comédia, a tragédia, a alegria e a amargura da Índia moderna.

Opinião: Este é com certeza um dos meus livros preferidos e foi a minha escolha para finalizar as leituras de 2016. Fiquei surpresa, mas feliz, quando peguei no livro e vi como ele já está com aquele aspecto velhinho, com as páginas amareladas e algumas marcas de uso. Não maltratado, mas claramente amado, porque já foi lido tantas vezes que já tem esse uso marcado nas páginas.
Este livro é algo absolutamente excepcional. Só uma mente extremamente criativa poderia usar um concurso como o conhecido "Quem Quer Ser Milionário" como mote para expor as condições de vida e o sofrimento de tantas pessoas que moram na Índia. Mas foi isso que Vikas Swarup fez e assim nos contou a história de vida de Ram, cuja aprendizagem ao longo da sua vida lhe permitiu adquirir os conhecimentos suficientes para ganhar o maior prémio de sempre no concurso. Genial, não é? Porque muitas vezes não é precisamos ter QI elevado, ter licenciaturas, mestrados e doutoramentos ou ter feito uma descoberta super importante para a Humanidade para sermos pessoas sábias e Ram, ao longo da sua vida de desenrasque, tornou-se numa pessoa com imensos conhecimentos sem mesmo ele perceber isso.
O livro começa logo a chocar pelo tratamento dado a Ram quando é preso. Afinal ele é só um empregado que nunca foi à escola, como pode ganhar um prémio num concurso de cultura? É escumalha e não merece ser tratado como pessoa, e é isso que lhe acontece. Mas com o desenrolar da história percebemos que a vida de Ram está cheia de episódios comoventes e chocantes. Desde maus tratos a mulheres a prostituição, pedofilia, exploração infantil (e que exploração!) ou homossexualidade, vários são os temas abordados ao longo do livro, em capítulos bem elaborados que normalmente correspondem à resposta a uma pergunta. Assim, mesmo que os temas sejam imensos, é impossível que tudo se torne uma enorme confusão. E acreditem, há capítulos aos quais simplesmente não consegui ficar indiferente, por me tocarem de forma mais especial. Apesar de ser ficção, sei que é baseado em coisas que realmente acontecem, o que nos faz questionar sobre como é possível coisas destas acontecerem mas, sobretudo, nos fazem agradecer pela nossa vida da qual nos queixamos tanto.
Ram é obviamente o personagem principal da história e sobre ele tenho a dizer que, se ele fosse real, seria a pessoa mais inocente do mundo. É óptimo (e acho que irreal) ver que uma pessoa que sofreu tanto ainda continua com o seu lado de bonzinho, que quer ajudar toda a gente, sem guardar mágoas para com o mundo, mas convenhamos que a vida dele seria bem mais fácil se ele não fosse tão inocente. Ele confia nas pessoas, não percebe quando está a ser trapaceado, e quando dá por ela já se tramou. Mas tudo bem, acho que para contar uma história extrema como esta também era preciso um personagem sentimental que nos fizesse sentir carinho por ela. Ninguém se iria comover com um qualquer mauzão.
Este vai ser sempre um dos meus livros preferidos. Foi um dos primeiros a chegar à minha estante, há quase 10 anos, e já o li um sem fim de vezes. É daqueles livros que não me importo de emprestar porque fico orgulhosa quando as pessoas o querem ler. Não será, com certeza, a última vez que o leio.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

[Opinião Livros] Leituras preferidas de 2016


Há alguns anos que não lia tantos livros num ano, apesar de nem terem sido tantos assim. Foram 25, metade do que li em 2013, mas o triplo do que li no ano passado. Este ano confesso que estive mais exigente nas minhas leituras, pelo que fui mais picuinhas a avaliar. Ainda assim, houve uns quantos livros que eu considerei muito bons e, de entre eles, escolhi os cinco que para mim foram os melhores. Esta lista conta com os livros editados noutros anos mas que eu li em 2016, e não apenas os livros editados em 2016. Excluí, no entanto, as releituras. 

Dezanove Minutos
Jodi Picoult


Jodi Picoult tinha já um lugarzinho no meu coração, conquistado após a leitura de "Para a Minha Irmã", mas firmou-o com este livro. Não me lembrava de um livro me expor tão bem dois lados tão diferentes da mesma história e me causar tanta dificuldade para tomar um partido. Um livro excelente que com certeza me marcou.

Opinião aqui.

Duplo Crime
Tess Gerritsen


Tess Gerritsen é uma das minhas autoras preferidas e já lhe estava a falhar, porque não lia nada dela há algum tempo. Este livro começou difícil para mim, demorou a que me embrenhasse, mas à medida que lia era surpresa atrás de surpresa! Cheguei ao fim completamente chocada e com a sensação de que esta autora nunca me desilude. Foi a minha leitura preferida do ano, com toda a certeza.

Opinião aqui.

Adeus
Susana Almeida


Este ano tentei ler mais livros de autores portugueses e Susana Almeida foi não só um deles como aquele que me deu mais gosto descobrir. "Adeus" é um livro com um fio condutor interessantíssimo, que não se torna monótono em momento nenhum e que facilmente agrada a diversos públicos. Um excelente livro de uma autora que quero continuar a seguir.

Opinião aqui.

Guerra Total: De Estalinegrado a Berlim
Michael Jones


Não foi a primeira vez que li algo de Michael Jones e, apesar de este livro seguir a linha do primeiro, este tocou-me muito mais por na minha opinião mostrar momentos da história ainda mais impactantes. Apesar de ser uma leitura pesada, houve partes em que simplesmente não consegui parar de ler, de tão absorta que estava. É preciso recordar que este livro conta as coisas como elas são e isso custa muito de digerir quando se lê o que aconteceu. Com certeza é um livro obrigatório para quem se interessa pela Segunda Guerra Mundial.

Opinião aqui.

Nas Asas Do Amor
Sarah Sundin


Se fossemos avaliar capas, esta era de certeza a minha preferida do ano. O meu lado apaixonado por capas palpitou quando viu esta e nem me interessei pelo conteúdo do livro. Felizmente a leitura não ficou aquém e fez-me amar estas personagens e esta história, quase me obrigando a pegar no segundo livro mal terminei o primeiro. O romance não é o meu género preferido, mas este com certeza conquistou-me.

Opinião aqui.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

[Opinião Livros] Adeus, de Susana Almeida


Adeus, de Susana Almeida


Editora: Individual
N.º de páginas: 348
Edição/Reimpressão: 2016

Sinopse: E se aqueles que partem nunca nos deixam sós? Quando os caminhos de Lucas e Carina se cruzam, ele está longe de imaginar a importância que ela terá na sua vida. Carina é diferente das outras raparigas, é leal, determinada, corajosa e altruísta, qualidades que rapidamente conquistam o seu coração. Mas depressa o sonho se transforma em pesadelo e é quando Lucas perde a vontade de viver que um pequeno pássaro branco mudará a sua vida.

Opinião: Ganhei curiosidade sobre este livro mal ele saiu, pela sinopse interessante, por ser de uma autora portuguesa, mas sobretudo pela capa linda! É impossível não começar esta opinião a felicitar a editora/designer por ter criado esta capa, que me fez babar por ela. A leitura podia não valer nada, mas está aqui o ponto suficiente para me fazer comprar o livro.
Nunca tinha lido nada da autora, peguei no livro completamente às cegas, mas no fundo esperava algo bom. Fiquei feliz por não ter as minhas expectativas defraudadas. Com uma escrita bastante fluída e que deu gosto ler, fui conhecendo Lucas e Carina e a sua história bem como o meio que os rodeava. No entanto, e apesar de a história se focar inicialmente em Lucas e Carina, existe toda uma variedade de coisas a acontecer em volta deles e gostei da atenção dada aos personagens mais secundários, que acabaram por ter uma história tão ou mais importante que os personagens principais. Lucas e Carina são dois personagens extremamente adoráveis, ele o homem que provavelmente qualquer mulher quer, ela a mulher forte que mostra a sua independência mas que mesmo assim é dona de um coração sensível. Enquanto lia acreditei mesmo que estava traçado o caminho para dar tudo certo, mas felizmente este livro está cheio de plot twists. Diferente do que eu previa, fui de repente apresentada a uma nova realidade, que me deixou de coração apertado, já que anda estava a recuperar de acontecimentos anteriores. Mas percebo claramente o objectivo: a vida segue em frente para todos e até eu, leitora, sou obrigada a enfrentar isso nos livros que leio.
Fiquei bastante surpreendida com a narrativa que me foi apresentada e com os contornos que ela tomou. Desde romance, ao drama e até ao sobrenatural, existe um pouco de tudo, nada em excesso, o que torna a leitura extremamente interessante e agrada a um público muito mais abrangente. É claramente um livro muito bem pensado, construído e apresentado, cuja leitura facilmente se torna empolgante e nos leva depressa demais para as páginas finais.
Nunca tinha lido nada da autora, mas fiquei fã. Este não é o primeiro livro dela e estou curiosa com os trabalhos anteriores, que pelo que percebi são de um temática bem diferente. Quanto a vocês, acho que deviam aproveitar o Natal, oferecer este livro e apoiar autores portugueses que bem merecem o reconhecimento!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

[Opinião Livros] As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky


As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky


Editora: Rocco
N.º de páginas: 224
Edição/Reimpressão: 2007

Sinopse: Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe - a não ser pelo que ele conta ao amigo nessas correspondências -, que vive entre a apatia e o entusiasmo, tacteando territórios inexplorados, encurralado entre o desejo de viver a própria vida e ao mesmo tempo fugir dela.
As dificuldades do ambiente escolar, muitas vezes ameaçador, as descobertas dos primeiros encontros amorosos, os dramas familiares, as festas alucinantes e a eterna vontade de se sentir "infinito" ao lado dos amigos são temas que enchem de alegria e angústia a cabeça do protagonista em fase de amadurecimento. Stephen Chbosky capta com emoção esse vaivém dos sentidos e dos sentimentos e constrói uma narrativa vigorosa costurada pelas cartas de Charlie endereçadas a um amigo que não se sabe se real ou imaginário.
Íntimas, hilariantes, às vezes devastadoras, as cartas mostram um jovem em confronto com a sua própria história presente e futura, ora como um personagem invisível à espreita por trás das cortinas, ora como o protagonista que tem que assumir seu papel no palco da vida. Um jovem que não se sabe quem é ou onde mora. Mas que poderia ser qualquer um, em qualquer lugar do mundo.

Opinião: Este foi um daqueles livros em que peguei nele porque não tinha nada à mão para ler sem ser o que estava no tablet, mas rapidamente se revelou uma leitura bem agradável e interessante, que se destacou por ser um pouco diferente do comum.
Sendo um livro composto por cartas, a sua leitura é logo a partir daí bastante leve. Este podia ser também um factor que levaria a pensar que seria um livro para adolescentes sem grande conteúdo, mas a verdade é que o livro está suficientemente bem escrito para fazer o leitor embrenhar-se no mundo e na dor de Charlie, o personagem principal. Na realidade não dá para se saber a fundo quem é este personagem ou o que lhe aconteceu realmente. Através de cartas que ele escreve para alguém, não sabemos quem, vamos sabendo um pouco do seu passado e do seu presente, das suas angústias e frustrações e como se sente enquanto adolescente incompreendido. É impossível não nos identificarmos em alguns momentos, porque também eu já fui adolescente e fui daquelas tão dramáticas que escrevia para desabafar.
Apesar de ser uma trama para adolescentes, está bem construída. Tem ainda aquilo que eu considerei vantagem de ser contada pela óptica do personagem principal, já que Charlie não é daqueles adolescentes que só têm ar na cabeça. Mas também não há como negar, apesar de ser uma trama agradável, não é daquelas que me vai marcar para a vida, nem sequer no momento da leitura me passou grandes sentimentos.
Em suma, este é um livro bem conseguido, perfeito para quando precisamos daquela leitura mais leve. Tendo em conta a premissa do livro, fico curiosa para ver o filme e se o mesmo vai acrescentar alguma coisa à história, já que outros pontos de vista serão provavelmente acrescentados.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

[Opinião Livros] O Homem Que Me Fizeste Ser, de André Sousa


O Homem Que Me Fizeste Ser, de André Sousa


Editora: Chiado Editora
N.º de páginas: 158
Edição/Reimmpressão: 2016

Sinopse: “São três da manhã e o sono parece não querer chegar. As memórias são tantas: os dias vividos, as fotografias espalhadas por esta mesa e a certeza… de que te amo acima de tudo nesta vida. Poderia passar o resto dos meus dias a escrever-te, a contar-te tudo o que despertas em mim, tudo o que fizeste para mudar a minha história. No fim de contas, fizeste de mim um homem melhor, um lutador que te abraça nas noites frias, que te beija nos instantes de loucura, que te protege em todos os dias desta nossa paixão.”

Opinião: Este é mais um daqueles casos em que o livro é escrito por uma pessoa que é muito querida para mim o que, como já disse muitas vezes, me deixa sempre com receio. Foi a confiança de que neste caso não teria de ser tão crítica (negativamente, pelo menos) que me fez pegar neste livro, até porque as opiniões positivas em relação ao mesmo andavam por aí e isso era um ponto a favor.
"O Homem Que Me Fizeste Ser" está muito longe de ser o tipo de livro que eu costumo ler. Foi bom para sair um pouco do género literário a que estou habituada e abrir portas para outros géneros. Neste caso é-nos apresentado um homem que, apaixonado, reuniu várias mensagens para a sua amada, demonstrando os seus sentimentos da forma mais sincera. Não é, por isso, uma história com trama, que nos fazem querer chegar ao fim para descobrir o final. É sobretudo um diário, que me pôs a reflectir sobre diversas situações, mesmo que eu não seja uma pessoa muito dada ao romantismo. E, ao contrário desses livros que nos fazem querer devorá-lo para chegar ao fim, este é um livro para se ler devagar. Diria até que é para se ir lendo, quando o estado de espírito estiver mais virado para isso. Fiquei com pena de não ter lido mais devagar e aproveitado melhor.
Em termos de escrita, não tenho nada de especial a apontar. No entanto, tenho que ressaltar o excelente trabalho que o autor fez a nível de design. Para além de todas as mensagens que constituem o livro, existem também imensas fotografias tiradas pelo autor, que embelezam em muito o livro, bem como o grafismo utilizado. Mal recebi o livro e o folheei, fiquei maravilhada com este aspecto. Acho que nem é injusto dizer que foi o que mais gostei no livro, mesmo que aqui devesse ser o talento do autor enquanto escritor a ser ressaltado.
Em suma, foi uma leitura bastante leve e fluída, que mesmo que não me tenha maravilhado abriu portas para novas experiências a nível de leitura. Tenho a certeza que quando existirem próximos trabalhos do autor quererei ler!

sábado, 15 de outubro de 2016

[Opinião Livros] A Retirada - A Primeira Derrota de Hitler, de Michael Jones


A Retirada - A Primeira Derrota de Hitler, de Michael Jones


Editora: Bizâncio
N.º de páginas: 368
Edição/Reimpressão: 2016

Sinopse: A batalha de Moscovo foi um inferno na terra, terrível e sangrenta para invasores e defensores. Michael Jones reuniu, uma vez mais, testemunhos de veteranos para nos trazer este quadro realista e impressionante. "A Retirada" é a história intensa e realista sobre o princípio do fim da Segunda Guerra Mundial, quando os exércitos de Hitler – em confrontos selvagens durante o inverno – sofreram a sua primeira derrota na Frente Oriental. Num dos momentos mais dramáticos da crise na Frente Oriental, em 1941, com as tropas de Hitler concentradas na periferia de Moscovo, o milagre aconteceu: Moscovo foi salva. No entanto, esta libertação foi seguida de uma retirada prolongada, durante a qual as forças russas obrigaram a recuar um exército alemão que sempre combateu ferozmente. Milhões de soldados e civis morreram nesta luta desesperada. Michael Jones, autor de O "Cerco de Leninegrado" e "Guerra Total", explora um manancial de novos testemunhos presenciais de ambos os lados do conflito – o soldado alemão que encontra os seus camaradas congelados em blocos de gelo, o tenente russo que chora de raiva devido à destruição desnecessária da sua unidade – para destacar os custos humanos da primeira derrota de Hitler, naquele que foi o ponto de viragem crucial da II Guerra Mundial [1939-45]. Esta batalha custou aos russos 27 milhões de mortos, entre militares e civis.

Opinião: E eis que Michael Jones volta a ser a minha escolha, a segunda vez num curto espaço de tempo. Admito que foi algo arriscado, porque já o disse e volto a dizer, estas não são leituras fáceis, e dois livros do autor quase seguidos tinha uma grande probabilidade de ser um desafio difícil de ultrapassar.
Desta vez o autor traz-nos uma visão diferente desta terrível guerra. Se nos dois livros anteriores acompanhamos o sofrimento dos russos e ficamos de coração apertado com as atrocidades que foram cometidas contra eles, desta vez é-nos mostrado como foi a guerra para os soldados alemães quando tentavam tomar a Rússia. Claro que é difícil alguém compadecer-se dos alemães quando o líder deles foi uma das piores pessoas que pisou este planeta, mas a verdade é que eles eram pessoas, tal e qual como os russos ou os judeus que pereceram. O livro conta-nos as dificuldades pelas quais estes soldados passaram, nomeadamente em relação às temperaturas e ao território, que foram os grandes aliados dos russos nesta guerra. No entanto, não sei se por parcialidade do autor ou porque não havia maneira de a imagem dos alemães ser realmente limpa depois dos últimos dois livros, este livro não consegue puxar realmente ao lado humanitário. Muitos alemães morreram, sim, mas a maior parte deles pelo orgulho do seu líder, que não soube ver as péssimas condições que os soldados atravessavam. Não há descrições de russos a cometerem atrocidades, antes pelo contrário, em alguns momentos eles tiveram atitudes que me fizeram acreditar um pouco mais na Humanidade. Assim, a nível de leitura, este livro foi um pouco mais moroso, por não haver nada que me tivessem deixado realmente chocada ou sem chão. Não por falha do autor, obviamente, mas por "culpa" da própria História.
Em comparação com os outros dois livros do autor, este fica um pouco aquém. Mais uma vez, não por falha do autor, que mantém o seu estilo de escrita. Simplesmente faltou a parte emotiva para me fazer querer virar a página e saber mais. Faltou um pouco mais de interesse da minha parte, que sentia que estava numa história que estava a demorar demasiado para acabar. Faltaram também relatos mais impressionantes, mas se não os havia, não ia ser o autor que os ia inventar. Por isso é que não posso dizer que não tenha gostado do livro, porque foi tão educativo como os anteriores e se é algo que me ensina algo novo, então eu gosto. Faltou apenas ser um pouco mais apelativo, mas cumpre com todos os objectivos. É para mim o pior dos três, mas se é um livro mau? Não, com certeza não é.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

[Opinião Livros] Nas Asas do Amor, de Sarah Sundin


Nas Asas do Amor, de Sarah Sundin


Editora: Quinta Essência
N.º de páginas: 454
Edição/Reimpressão: 2012

Sinopse: Separados por uma guerra e um oceano… conseguirão voltar a juntar-se? Allie nunca foi suficientemente bonita para agradar à sua deslumbrante mãe, por isso fará qualquer coisa para ter a sua aprovação: até casar com um homem que não ama. Enquanto Allie quase se resigna ao seu destino, o tenente Walter Novak – destemido na cabina de pilotagem, mas sem jeito para as mulheres – vai a casa na sua última licença antes de ser enviado para a Europa, combater pela Royal Air Force durante a Segunda Guerra Mundial. Walt e Allie conhecem-se e o seu amor pela música junta-os, fazendo-os começar uma correspondência que mudará as suas vidas. Enquanto as cartas vão e vêm entre a base de bombardeiros de Walt, em Inglaterra, e a mansão de Allie, a amizade que cresce entre os dois une-os. Mas serão eles capazes de resolver os segredos, compromissos e expetativas que os separaram?

Opinião: Este era um daqueles livros que já estava a angustiar na minha estante, à espera de ser lido. Comprei-o há bastante tempo numa promoção à qual não resisti, só porque achei a capa demasiado linda para deixar ficar o livro. Entretanto ele ficou a ganhar pó na estante e no outro dia peguei nele e voltei a apaixonar-me pela capa maravilhosa.
Neste livro somos transportados para a Segunda Guerra Mundial, para um ambiente de tensão que afecta em tudo a vida da sociedade. É neste ambiente que conhecemos primeiro Allie, uma jovem oprimida pela família que se vê inclusive envolvida num casamento com o qual não concorda só porque não é capaz de desafiar os pais. Allie acaba por conhecer Walter e a faísca entre os dois é quase imediata, o que é algo que eu nem costumo gostar, mas que na categoria de "romance fofinho" é algo que fica sempre bem. No entanto, a forma como esta história se desenrola acaba por ser algo que a diferencia de muitas outras. Bem adequada ao ambiente vivido, a história entre Allie e Walter, bem como o seu romance, é à base de cartas. Enquanto isso, vamos percebendo o quanto a relação entre os dois mudou ambas as personagens, mesmo que ambos estejam a sofrer por amor. Admito que houve algumas partes da história em que me irritei, porque parecia que estava a assistir a uma novela da TVI, cheia de esquemas e vinganças, mas isso rapidamente era suplantado porque facilmente me envolvi na história. A ideia de ser em parte contada por cartas ajudava, porque ficava sempre na expectativa de saber como iria reagir o personagem à próxima carta. Sarah Sundin foi inteligente na forma como criou este crescendo, mantendo o leitor facilmente preso à leitura.
Em relação às personagens, posso dizer que elas são personagens típicas deste tipo de livros. Walt é o homem corajoso que vive na sombra dos irmãos, mas que no fundo é um romântico incurável, e Allie a menina rica que se vê obrigada a obedecer aos pais. O interessante aqui é ver o desenvolvimento dos dois enquanto personagens, especialmente Allie, que ao longo das páginas tem uma evolução e mudança incríveis. No final, deu gosto perceber o tipo de mulher em que se tornou. Aliás, foi a evolução dela que me fez gostar ainda mais do livro, porque aqueles momentos finais dela não só foram românticos e divertidos como me fizeram sentir orgulho na forma como ela lutou para deixar de ser uma mulher oprimida pela sociedade.
Em relação à escrita, este foi provavelmente um dos livros mais fáceis de ler que li este ano. A leitura flui com uma facilidade incrível, mesmo que o livro ainda tenha um tamanho considerável. A escrita de Sarah Sundin é também bastante acessível e "gostável", pautada até de bastantes momentos que nos fazem sorrir. Não sendo eu a maior fã deste género literário, a autora com certeza cativou-me.
O grande resumo que posso fazer desta opinião é basicamente o que senti quando fechei o livro: a vontade de pegar no segundo foi enorme. Achava que ia gostar do livro, mas não achava que fosse gostar tanto. A leitura do próxima volume está para breve, porque quero muito saber quais vão ser as próximas aventuras de Walt e Allie (e porque, para variar, também sou apaixonada pela capa do segundo volume).

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

[Opinião Livros] Doce Sonho Alado, de Sheila Lima Wing


Sonho Alado, de Sheila Lima Wing


N.º de páginas: 377
Edição/Reimpressão: 2015

Sinopse: Um crime abala a cidade de Coronel Boaventura: um corpo é encontrado na Biblioteca Municipal (que, aliás, estava trancada pelo lado de dentro), vestido com roupas elegantes e segurando um livro chamado "O Mistério do Caso Boaventura". Espalha-se pela redondeza o boato de que o livro possa estar amaldiçoado pelo fantasma do fundador da cidade. 
Enquanto isso, Evangeline Maria Ayler – uma garota de onze anos – e sua amiga Hanna Auster passam a estudar num semi-internato particular, o Instituto Educacional A. W. Sigma. Ambas são garotas simples, moram numa favela, e precisam se desdobrar para se adaptar à nova vida entre os filhos da elite. Evangeline logo descobre que há um mistério envolvido nesse convite a estudar no Instituto: o diretor Último Wing, seu tio de consideração, possui questões mal resolvidas com a mãe da garota, parece ser o tipo de sujeito no qual não se pode depositar confiança. 
Durante o ano letivo Evangeline tenta resolver vários mistérios, como o caso da morte na biblioteca, um rosto que lhe espia das sombras, um garoto estranho e seu gato peludo; além de vários outros enigmas e questões comuns que fazem parte dos desafios de ser uma pré-adolescente; tudo isso com muita diversão e aventura. 

Opinião: Este livro chegou-me às mãos após conversa com a autora, que me pediu para ler e opinar o mesmo. Claro que acedi, com todo  gosto, porque considero meu dever divulgar os autores que não têm o seu nome no panorama da literatura nacional. Apesar de o livro ser escrito em português do Brasil, não achei isso um entrave, já que estou habituada a ler em p-br e acabo por deslindar algumas das expressões que os brasileiros usam e nós não.
O livro apresenta-nos Evangeline que, com a sua amiga Hannah, começa a frequentar um novo colégio. Aqui as duas travam novas amizades e o processo de integração das duas é muito bem descrito ao longo do livro. Aliás, por vezes acho que há demasiado foco neste desenvolvimento, em detrimento do desenvolvimento de outras situações, como o caso de homicídio que é premissa do livro. Aliás, penso que este caso de homicídio não tem o espaço que merecia nem o desenvolvimento que merecia. As coisas acabam por acontecer um pouco só porque sim, não existe realmente uma investigação policial que possamos acompanhar e senti muito a falta disso. A premissa para o crime era até interessante, mas sinto que se perdeu num mar de coisas não tão interessantes. Para além disso, parece-me por vezes que alguns assuntos foram enfiados ali a pontapé, como se tivessem sido inseridos apenas para chocar, mesmo que não se enquadrassem de todo. Em alguns momentos parava de ler e pensava "mas qual é o interesse disto para a história?" e normalmente chegava a conclusão nenhuma. Mas de qualquer forma há que lembrar que existem mais dois volumes desta história e portanto a resposta à minha questão pode estar num deles.
Se há algo que me faz confusão neste livro é a idade dos personagens. Eles têm 11/12 anos. Sim, 11/12 anos. Têm esta idade e interessam-se por um homicídio, têm conversas de adultos e desenvolvem raciocínios complexos acerca do mesmo. Dão opiniões e têm ideias que não se adequam nada à sua idade. E pior, as pessoas contam-lhes as coisas, a polícia dá-lhes crédito, eles estão quase tão a par das investigações como se fossem adultos. Para mim estas personagens não fazem sentido e arruinaram completamente a leitura, porque na minha cabeça não havia maneira de conceber que numa realidade isto aconteceria. Para além disso, sinto que havia demasiadas personagens, quando a maior parte delas nem sequer foi desenvolvida. E depois claro, há aquelas personagens que são tão irritantes que apetece bater-lhes, mas tudo bem, pelo menos a autora diversificou a personalidade delas e isso é um ponto positivo.
Em suma, sinto que me chegou às mãos um livro que podia ter sido melhor aproveitado. Mesmo que não tenha sido das piores coisas que já li, não me senti cativada nem entusiasmada para saber mais sobre este mundo. Foi pena, porque de qualquer forma a autora escreve bem e tem uma escrita fácil de acompanhar. Mas para o meu gosto faltou qualquer coisa. Mais uma vez, é pena. Gostava de ter gostado mais.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

[Opinião Livros] Quando Voltares Para Mim, de Margarida Rebelo Pinto



Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 240
Edição/Reimpressão: 2016

Sinopse: "Vale sempre a pena viver uma história de amor até ao fim", diz Margarida Rebelo Pinto a propósito do seu novo livro. "Quando Voltares para Mim" reúne um conjunto de cartas entre cinco mulheres. É um livro que tem borboletas e pipocas, escrito tanto com a razão como com o coração, aceitando tão bem o sonho como a realidade, refletindo sobre as relações amorosas e tudo o que está ao nosso alcance para sermos felizes, acrescenta a autora. Vale quase tudo desde que haja amor.
E de que falamos quando falamos de amor?
Falamos de nós e daqueles que amamos, dos nossos sonhos e segredos, medos e desejos, relembra a autora, que regressa neste livro a um dos seus registos preferidos, à semelhança de "Diário da Tua Ausência" e de "O Dia em que te Esqueci".
«No amor e na guerra vale tudo? Não. A guerra dentro do amor faz-se quando é preciso, mas no fim ninguém ganha. Levar um amor para a frente só tem sentido se for levado pelos dois, se for carregado a quatro braços quando se torna pesado, até recuperar a leveza. E só se entra em guerra quando já não há paz possível.»
A autora traça neste livro um mapa das relações afetivas, nas suas mais diversas formas, com seriedade, humor, lucidez e emoção em doses iguais. Catarina, Matilde, Laura, Joana e Paula relatam nas cartas que trocam entre si as suas certezas e dúvidas, segredos e confissões, e tudo aquilo que as faz continuar a acreditar que o amor pode mudar a nossa vida para sempre.

Opinião: Já ando no mundo da blogosfera literária há tempo suficiente para saber qual a opinião generalizada que os bloggers têm em relação a esta autora. No entanto, ter uma opinião própria é sempre o melhor e esta revelou-se uma óptima oportunidade para isso. Mesmo que ela tivesse acabado por ir de encontro a essa mesma opinião generalizada.
Ao longo deste livro vamos conhecendo, através da correspondência entre elas, Catarina, Matilde, Laura, Joana e Paula, sendo que o principal foco acaba por ser Matilde por estar a viver uma relação amorosa que não é de maneira nenhuma satisfatória. A forma como o livro está escrita é realmente interessante, permitindo mergulhar mais facilmente nos pensamentos das diferentes personagens, que por terem vivências diferentes também lidam com as situações de maneiras diferentes. Mas para mim esse acabou por ser o único ponto positivo livro, até porque permitiu uma leitura muito mais rápida e menos cansativa. No entanto, o livro acaba por ser uma reflexão sobre os relacionamentos, o amor e as pessoas. E é, com certeza, um reflexo daquilo que a autora pensa e como ela vê a sociedade hoje em dia. Infelizmente, enquanto lia fui discordando vezes demais daquelas visões, quase me sentindo insultada em alguns momentos. Ainda bem que pelo menos consegui ultrapassar essa sensação de insulto e pensar que era só um livro, porque senão acho que nem o tinha terminado.
Resumindo, este não é um livro para mim. Normalmente prefiro uma boa história, coisa que este neste caso praticamente não tem, e quando se trata de reflexões prefiro realmente algo que seja menos corriqueiro que homens e relacionamentos. Acreditem, para mim foram demasiadas páginas a ler sobre este assunto, logo eu que sou uma pessoa tão liberal em relação a isso. Assim sendo, acredito que haja um público que goste deste tipo de livros, mas eu não consegui gostar por simplesmente não fazer o meu género.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

[Opinião Livros] A Terapeuta, de Gaspar Hernàndez



Editora: Marcador
N.º de páginas: 232
Edição/Reimpressão: 2016

Sinopse: Hèctor Amat, um ator famoso que sofre de ataques de ansiedade, vê-se envolvido num terrível crime. Sem saber como, nem porquê, aparece num parque de estacionamento, junto de uma mulher assassinada. Por mais que se esforce para reconstituir os seus passos, não consegue lembrar-se do que aconteceu.
O tempo e a investigação não jogam a seu favor, por isso, Hèctor decide pedir ajuda como derradeiro recurso para recuperar a memória. Visita então o consultório da psicóloga Eugènia Llort, a terapeuta que o atendeu depois do crime. Esta relação, num primeiro momento profissional, vai-se convertendo num relacionamento de dependência, que atingirá limites nada usuais. Para que Hèctor possa representar, a psicóloga vai todas as noites ao teatro onde ele interpreta Dick Diver, o protagonista de "Terna é a Noite". Mas, tal como a sua personagem, um psicólogo que se apaixona por uma paciente, também ele acaba por se apaixonar perdidamente pela terapeuta.

Opinião: Este foi um livro que me despertou imediatamente o interesse quando soube que ia sair mas que, após a leitura de algumas críticas, viu esse interesse diminuir por estar tão mal cotado no Goodreads. No entanto, e como expectativas altas têm tendência para estragar tudo, acho sinceramente que fiz uma boa opção ao ir ler essas críticas.
Gaspar Hernàndez apresenta-nos um livro completamente diferente daquilo que estou habituada a ler. A premissa é bastante simples, um actor vê-se envolvido numa situação assassinato e consequentemente perde a memória. Após isso, passa a fazer terapia para perceber o que aconteceu naquela noite e até que ponto ele é culpado. Mas, ao contrário do que eu esperava, este livro não tem nada a ver com um policial ou um thriller. É absolutamente psicológico, tem como única intenção entrar na mente das personagens e deslindar quais as suas motivações e receios. Por isso mesmo, e essa foi a principal crítica que li, este livro não possui exactamente uma trama, não tem uma história com princípio, meio e fim. É mais um entranhar na mente dos personagens, o que não deixa de ser interessante, quando nos predispomos a tal.
Assim, conhecemos Héctor, um actor que mesmo sendo considerado um dos melhores da sua geração, acho que tudo à sua volta é um mal-entendido. É um personagem com a auto-estima bem lá em baixo, mas extremamente interessante. Na realidade, saber em que circunstâncias ele se envolveu no homicídio não é tão importante como acompanhar o desenvolvimento psicológico deste personagem, que tem imenso pano para mangas. E depois existe Eugènia, a psicóloga que logo desde início nos deixa com a pulga atrás de orelha por não parecer de todo uma psicóloga normal. Também ela é alvo de todo um escrutinar por parte do leitor, fazendo assim com que conheçamos o seu passado até tirarmos as nossas próprias conclusões sobre que tipo de pessoa é ela. E, mais uma vez, e longe do que eu achava, isto não é um romance entre os dois, ou alguma espécie de relação abusadora por os sentimentos não serem correspondidos. O livro está bem trabalhado ao ponto de passar completamente ao lado disso e focar em coisas mais importantes.
A leitura do livro é extremamente fluída e Gaspar tem uma escrita muito característica, dotada de algumas repetições que nos permite focar nos detalhes mais importantes. Não foi daqueles livros que me obrigou a ler sofregamente, mas escolhi-o para ler numa tarde enquanto apanhava sol e a leitura acabou por me decorrer com uma velocidade considerável. No final das contas, a minha opinião acabou por ser bem mais positiva do que aquelas que li, talvez graças ao facto de as expectativas estarem em baixo. Eu gostei, achei interessante e diferente. Para uma leitura para fugir um pouco daquilo que se costuma ler, é com certeza uma boa opção.

domingo, 28 de agosto de 2016

[Opinião Livros] Guerra Total - de Estalinegrado a Berlim, de Michael Jones



Editora: Bizâncio
N.º de páginas: 352
Edição/Reimpressão: 2015

Sinopse: Em Fevereiro de 1943 a maré da guerra mudou quando os alemães se renderam em Estalinegrado. Em Maio de 1945 os soldados soviéticos tinham atravessado a Europa de Leste e atacaram Berlim para pôr fim ao regime de Hitler."Guerra Total" é uma história poderosa sobre uma das fases mais cruciais da Segunda Guerra Mundial. Michael Jones recorre a relatos sinceros de testemunhas presenciais, a documentos pessoais tanto de fontes alemãs como russas, e traz-nos a história humana por detrás da libertação da Europa.

Opinião: Michael Jones já me tinha surpreendido anteriormente com o seu livro "O Cerco de Leninegrado", no qual contou detalhadamente o cerco que durante a Segunda Guerra Mundial matou milhares de pessoas na Rússia. Neste seu mais recente livro o autor foca-se, sobretudo, nas tropas que lutaram para libertar a população do poder de Hitler, nas suas vivências e, acima de tudo, nos seus traumas. Quando peguei no livro, já sabia que seriam páginas difíceis de digerir.
Livros sobre a Segunda Guerra Mundial sempre me chamaram a atenção, por ser um período tão negro para a história da Humanidade. A maioria dos livros que li foram, no entanto, histórias que se passavam nesse período, e não exactamente um documentário, como este livro. Por isso mesmo, esta é uma leitura bastante pesada e pouco fluída, na medida que muitos dos factos apresentados não interessam tanto e eu acabei por simplesmente não os absorver, ansiosa por chegar às partes que me interessavam. No entanto, e ao contrário daquilo que eu imaginava que aconteceria, consegui ler a um ritmo consideravelmente elevado, mesmo que algumas partes fossem mais difíceis de ultrapassar. 
O autor não é um contador de histórias. Ele escreve os factos, de forma crua, e não importa se isso vai chocar. Na realidade, é mesmo para chocar, para percebermos o quão horrível o ser humano consegue ser. Os testemunhos, os números, os factos, todos são apresentados sem ponta de piedade. Querem uma leitura que vos vai dar aquele aperto no coração, que vos vai fazer sentir pequenos e horríveis, mesmo que nada tenham a ver com o assunto? Sim, este é o livro perfeito para isso. 

"Numa cabana, a um canto de um jardim, deparámo-nos com um velho que tinha sido enforcado. Ao lado, também enforcados, duas mulheres jovens e três crianças - a mais nova teria uns três anos. Um homem jovem estava caído no chão ao lado deles, com uma corda partida ainda em volta do pescoço."

Os livros deste autor são provavelmente os únicos em que selecciono citações, porque simplesmente fico absorta com as coisas que leio. Claro que eu tenho o mínimo conhecimento sobre o que foi o poder nazi e as atrocidades que eles cometeram, mas ver tudo detalhado deixa-me completamente de queixo caído. E, não chegando todo o horror que a História contém, existe ainda algo que me deixou ainda mais abismada: ao contrário do que imaginava, muitas, muitas mulheres mesmo lutaram pelas forças soviéticas, ocupando cargos importantes e desempenhando papéis de destaque. A descrição daquilo que acontecia a estas mulheres quando eram capturadas fez-me parar a leitura durante uns instantes para recuperar. Acreditem, não é qualquer livro que consegue fazer-me isto.

"Numa delas encontrámos umas caixas de arrumação (...) cheias de dentes de ouro. Na seguinte havia caixas cheias de cabelo de mulher. E em seguida entrámos numa outra sala, cheia de artigos manufacturados - malas de senhora, abajures, carteiras... A nossa guia disse-nos «São todos feitos de pele humana.»


Para quem gosta de ler sobre Auschwitz, temos aqui também um excelente relato, bastante detalhado, sobre a entrada das tropas nos campos, a libertação dos mesmos e os horrores que os soldados viram. Pessoalmente, de entre tanta coisa abismal que li, esta foi com certeza a que me chocou mais. Quando cheguei a esta parte simplesmente não conseguia parar de ler.
A opinião já vai mais longa que o costume, mas este livro realmente merece-a. Para quem se interessa pela Segunda Guerra Mundial esta é uma leitura obrigatória e que em muito vai enriquecer a nível de conhecimento. Óbvio que é uma leitura direccionada para um público que se interessa pelo tema e portanto jamais o aconselharia a outro tipo de público. Mas para quem, como eu, gosta sempre de saber mais, aconselho vivamente a leitura.

E eu não costumo fazer isto, mas desta vez sinto-me obrigada a fazê-lo. Enquanto lia e me embrenhava na História lembrei-me desta música, interpretada brilhantemente por Jamala, que se refere justamente às invasões hitlerianas e à luta por parte das forças soviéticas para libertar o país. "1944" foi o ano em que finalmente conseguiram fazê-lo.

"Quando os estranhos estavam a chegar
Chegaram a tua casa
Mataram toda a gente e disseram
«Nós não somos culpados»"


Vale a pena ouvir!

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

[Opinião Livros] Ouro Preto, de Sérgio Luís de Carvalho


Ouro Preto, de Sérgio Luís de Carvalho


Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 296
Edição/Reimpressão: 2016

Sinopse: «O paraíso terreal, em que Adão foi criado, está no Brasil, perpendicular ao lugar em que Deus tem o seu trono no céu. Porque no Brasil se acha o fruto da árvore da vida, que são as bananas compridas, e o da ciência que são as bananas curtas, e frutos e rios e delícias.»Pedro de Rates Henequim, profeta e herege (1680-1744) Sérgio Luís de Carvalho é autor de uma vasta obra composta essencialmente por romances inspirados em factos reais e livros de divulgação de histórica. Ouro Preto é o título do seu novo romance, um livro que remete o leitor para uma Lisboa deslumbrada pelo brilho do ouro do Brasil e amesquinhada pela pobreza. Entre a comédia e a tragédia, este romance baseado em factos reais transporta-nos para o cenário ostensivo e bizarro do Portugal setecentista. Estamos em pleno século XVIII, vivem-se perigosas manobras políticas, segredos de alcova, amores, desamores e traições insinuam-se por detrás das procissões, dos autos de fé e das festas cortesãs. Sejam bem-vindos ao reinado de D. João V, o rei que nos fez sonhar com o ouro preto.O ritmo e a linguagem dão vida à narrativa, intercalada amiúde por cartas de Pedro de Rates Henequim dirigidas a D. Nuno da Cunha e Ataíde, cardeal e inquisidor-mor do reino, e missivas de Alexandre de Gusmão para D. Luís da Cunha, embaixador de Portugal em Paris. "Ouro Negro" é um romance que se lê num ápice e no qual reconfirmamos Sérgio Luís de Carvalho como um dos principais autores portugueses de romances históricos da atualidade. «Sendo certo que, como se disse antes, mesmo a noite mais escura é sempre sucedida pela luz da madrugada, assim a subida ao trono de El-Rei D. João V iluminou o Paço Real com uma chama dourada que os tempos vindouros se encarregariam de lustrar ainda mais. (…) E então foi um estupor brilhante. Se outrora a humilde corte portuguesa mais se parecera com um beatério de arrabaldes ou com um palacete de província (o que causava desgosto nas infantas estrangeiras que vinham para matrimónio, acostumadas a outros requintes cortesãos), se outrora a corte portuguesa fora um beatério ou um palacete, dizia-vos, eis que agora, com o novo rei, a dita corte se enfeitou de refinamentos e francesismos a que ninguém estava habituado. As damas começaram a poder entrar no Paço, primeiro lentamente, lentamente entrando nas alas palacianas, nas Salas dos Embaixadores ou dos Leões, mirando em soslaio à sua volta assim como quem não quer a coisa; mas depois, passada a surpresa por tamanha liberalidade, logo elas encheram as salas de froufrous roçagantes e de sorrisos escarninhos que faziam os homens olhá-las quando elas passavam, fingindo, é claro, que não davam por nada.»

Opinião: Este livro foi para mim uma estreia, não só no autor como no mundo dos históricos portugueses. Sou bastante fã do género, mas curiosamente nunca me tinha aventurado pela história de Portugal. Quando tive a oportunidade de ler este livro fiquei imediatamente interessada, ansiando por conhecer um pouco melhor a história do meu país.
Ao ler a sinopse (não esta aqui presente, a que está na contracapa do livro), não esperava de todo encontrar o livro que encontrei. Achava que seria uma história contada por um narrador não presente no livro, mas a mesma é contada por mais que um narrador, todos eles presentes no livro, na maior parte das vezes através de cartas. Assim vamos conhecendo Pedro Rates de Henequim, um homem condenado que vive demasiado no seu mundo religioso, e Alexandre de Gusmão. A partir destas cartas conhecemos não só as histórias deles, como o que anda a acontecer pela corte portuguesa naquele período. E assim fui tendo a descrição de diversos acontecimentos, na corte e fora dela. Admito que passei um bocado ao lado daquilo que acontecia na casa de D. João V, já que é muito mais interessante ler sobre o povo, as dificuldades que o mesmo passava e os costumes deste. Claro que se denota ao longo do livro muitos pormenores machistas, que muito me fez pensar no papel da mulher na sociedade daquela altura e como ela era tão desvalorizada.
Em termos de personagens, foi difícil apegar-me a algum, até porque todas as cartas escritas eram demasiado cordiais para expressar sentimentos. Assim sendo, não havia grande emoção por parte dos personagens e não havia grande motivo para apegos a não ser algum sentimento de injustiça. No entanto, acabei por gostar de Pedro Rates de Henequim, por ser tão eloquente e por realmente lutar por aquilo em que acreditava, mesmo que fosse contra a mentalidade de todos à sua volta. Não conhecia o personagem histórico e não fazia ideia de qual tinha sido o seu final na sua vida real, então chegar ao fim do livro e perceber o que lhe aconteceu foi uma pequena facada. Num mundo ficcional uma personagem assim interessante não mereceria um final, mas infelizmente estamos a falar da vida real e portanto, numa época muito mais arcaica e menos tolerante, a sua diferente maneira de ver o mundo não podia trazer coisas boas.
Em relação à escrita de Sérgio Luís de Carvalho, foi uma boa surpresa. Apesar de ser uma escrita bastante formal, perfeitamente adequada à época que o livro retrata, permite uma leitura fluída. As cordialidades e as palavras de época não me afectaram nem um pouco o ritmo de leitura e acabei por ler o livro até bem depressa. Assim sendo, a minha nota para o autor e para esta estreia é bastante positiva. Fiquei bastante curiosa por ler outros livros dele, leituras essas que tentarei que se proporcionem em breve.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

[Opinião Livros] A Carne de Deus, de Afonso Cruz


A Carne de Deus, de Afonso Cruz


Editora: Bertrand Editora
Edição/Reimpressão: 2008
N.º de páginas: 272

Sinopse: Thriller" satírico e psicadélico. Conrado Fortes, um homem cinzento, anónimo, preguiçoso, sem interesse nem qualidades, que ainda vive com a mãe, e Lola Benites, uma atraente jornalista a juntar informação para fazer um livro sobre seitas secretas, são apanhados separadamente, por se encontrarem no sítio errado à hora errada, na voragem de uma luta assassina entre lojas maçónicas, pelo segredo de uma delas. É uma história cheia de aventura, "suspense" e ironia. A sua trama, o primeiro romance que Afonso Cruz edita, «nasceu de várias viagens pelo Leste europeu, América do Sul, Ásia e África, bem como do facto de ter sido iniciado em organizações escusas e religiões em desuso. Por vezes animistas e, ocasionalmente, insalubres, segundo os nossos padrões de civilidade.»

Opinião: Quando decidi pegar neste autor para ler não estava de todo à espera do que acabei por encontrar, Opiniões de outros bloggers levaram a que eu quisesse experimentar, já que colocaram o autor num patamar superior, então acho que as minhas expectativas acabaram por ser demasiado elevadas.
A nível de escrita, Afonso Cruz tem um estilo muito próprio, muito interessante e invulgar, que pessoalmente gostei bastante.  É preciso mestria para trabalhar as palavras como ele o faz e criar diálogos da maneira que ele os cria, satirizando, criticando e colocando várias pitadas de humor negro. Muitas vezes dei por mim a abanar a cabeça por achar tão ridícula a forma como o texto estava formado, mas achando absolutamente genial que o autor conseguisse fazer aquilo. Admito que fiquei fã da escrita do autor e por causa merece todas as minhas vénias.
Penso que o maior problema que tive com este livro se prende sobretudo com o ambiente em que o li, o que não me permitiu absorver todos os pontos que provavelmente havia para absorver. Desde que comecei a trabalhar que o único tempo que dedico à leitura é mesmo quando estou parada no trabalho, e portanto sinto que todas as vezes em que era interrompida perdia um pouco da história. Volta e meia já misturava as personagens até que simplesmente deixei de as identificar, não tendo aquele elemento que para mim as caracterizava. Não encontrei nada que me fizesse criar ligação com nenhuma delas, apesar de achar alguma piada a Conrado, que é com certeza o personagem mais característico da história toda. Depois a trama envereda por um assunto que, admito, não me desperta qualquer interesse, e portanto não foi fácil para mim encontrar algo que me puxasse e quisesse saber o que ia acontecer a seguir. Fui lendo mais por teimosia, apesar de que não estava a achar o livro abominável, mas não posso dizer que tenha sido um prazer passar o tempo com o nariz enfiado no livro.
Mais uma vez digo que fiquei fã do autor e da sua escrita e ainda acredito nas palavras dos meus colegas bloggers acerca de outros livros do autor. Este foi o primeiro livro e, como já disse por aqui, primeiros livros são difíceis. Quero e com certeza irei dar outra oportunidade a Afonso Cruz, na esperança de encontrar essas obras-primas de que se fala por essa blogosfera fora!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

[Opinião Livros] Flashback - Memórias Esquecidas, de Orquídea Polónia


Flashback - Memórias Esquecidas, de Orquídea Polónia


Editora: Chiado Editora
Nº de páginas: 146
Edição/Reimpressão: 2016

Sinopse: “O ar estava carregado, os meus sentidos alertavam-me que algo de negativo se passava lá. As paredes altas de cimento davam-me a sensação de estar presa. O chão de madeira a chiar debaixo de mim provocava-me arrepios.”
Após um misterioso acidente, Anabela acorda sem qualquer memória daquilo que teria sido a sua vida. Assim, vê-se envolvida num mar de incerteza e solidão, sem qualquer vestígio da pessoa que fora um dia. As suas novas amizades permitem-lhe ir descortinando o seu passado, encontrando toda uma vida prévia ao acidente: uma família, uma casa luxuosa e um marido. No entanto, aquilo que ela descobre também a coloca em perigo e as suas memórias tornam-se alarmes sonantes de um passado imperfeito. Deverá Anabela confiar na vida que tivera um dia e nas pessoas que lhe eram próximas? Ou deverá construir um novo caminho segundo o que lhe dita o coração?

Opinião: Provavelmente uma das coisas mais ingratas que pode acontecer a um blogger é ter de opinar sobre os livros que amigos seus escrevem, já que custa sempre criticar algo que sabemos pessoalmente que foi feito com tanto carinho (e eu como autora sei bem o amor que um autor tem por aquilo que escreve). 
Este é um livro que se lê bastante depressa, primeiro porque é pequeno e segundo porque a escrita não é propriamente maçadora. Na realidade não tenho críticas a apontar à escrita da autora, que é cuidada e flui bastante bem. Já me passaram pelas mãos livros bem piores a nível de escrita vindos desta editora. Nota-se também que houve especial cuidado para não deixar passar gralhas (o que mais uma vez é uma coisa bem espantosa de se ver em livros da Chiado), portanto no âmbito da escrita não tenho nada de especial a apontar.
O grande problema prende-se com a trama em si. Aliás, penso que o grande problema é mesmo o tamanho do livro: não é fácil apanhar-se um livro com menos de 150 páginas que esteja bem desenvolvido e este simplesmente não está. As personagens são-nos apresentadas depressa demais e as suas storylines enfiadas garganta abaixo sem grandes delicadezas. Não dá para nos apaixonarmos pelas personagens, para termos pena delas ou torcermos por elas. Elas são simplesmente peões com os quais não me importei minimamente. Faltou desenvolvimento, muito desenvolvimento, e mais cuidado na caracterização. Depois disso, existe uma trama demasiado cliché que tenta enfiar no mesmo saco assuntos a mais, assuntos esses que, novamente, ficaram perdidos num livro que era pequeno demais para eles. Desde a um caso de amnésia, que podia ser tão bem explorado e ter dado tanto pano para mangas, até a um caso de tráfico humano, que é complexo e não devia ter sido falado de forma tão leve, senti que muito ficou a faltar. A história foi demasiado corrida e superficial. Cheguei ao fim, fechei o livro e percebi que não senti emoção nenhuma ao lê-lo e não é isso que se pretende numa leitura.
Este é o primeiro livro da autora e primeiros livros são difíceis. Nota-se que ela tem lá o dom, sabe escrever, mas falta-lhe a imaginação para ir mais além, sem querer apenas debitar tudo. Óbvio que isso se consegue com trabalho e experiência, portanto acredito que ela esteja no caminho certo. Não tendo sido um livro tão bom, fico à espera de ver evolução nos próximos trabalhos!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

[Opinião Livros] Dezanove Minutos, de Jodi Picoult


Dezanove Minutos, de Jodi Picoult


Editora: Civilização Editora
N.º de páginas: 532
Edição/Reimpressão: 2007

Sinopse: Uma excelente abordagem a um assunto delicado na sociedade contemporânea: um tiroteio no liceu. Mais uma vez, Picoult aborda um assunto delicado na sociedade contemporânea, um tiroteio no liceu, levantando perguntas como: o seu filho pode tornar-se num mistério para si ? O que significa ser diferente na nossa sociedade? É justificável para uma vítima ripostar? E quem – se é que alguém – tem o direito de julgar outra pessoa? Em Sterling, New Hampshire, Peter Houghton, um estudante de liceu com dezassete anos, suportou anos de abuso verbal e físico por parte dos colegas. A sua amiga, Josie Cormier, sucumbiu à pressão dos colegas e agora dá-se com os grupos mais populares que muitas vezes instigam o assédio. Um incidente de perseguição é a gota de água para Peter, que o leva a cometer um acto de violência que mudará para sempre a vida dos residentes de Sterling.

Opinião: Já é hábito Jodi Picoult abordar nos seus livros temas bastantes polémicos e neste caso temos um tema não só polémica como, infelizmente, bastante actual: os tiroteios em escolas, pelas mãos de alunos. 
Penso que normalmente ninguém pára para pensar porque é que estas situações acontecem. Eu, pelo menos, não páro. Deduzo automaticamente que aquela pessoa que disparou é culpada, e na realidade ninguém lhe pode tirar a culpa, mas nunca me dei ao trabalho de pensar na história que está por trás. E assim conheço Peter, o rapaz que foi vítima de bullying por toda a sua vida, atormentado e humilhado pelos colegas, abandonado pela melhor amiga e oprimido pelos pais. É esta pessoa que um dia entra com uma arma no seu liceu e desata a disparar à toa sobre os colegas. Mas o Peter não é só uma personagem deste livro, o Peter representa aquilo que muitos de nós passamos, é aquela criança que é constantemente maltratada e que nós ignoramos, mesmo que saibamos que é errado. Claro que a maioria dessas crianças não acaba por provocar um massacre, mas este Peter obriga-nos a pensar nas consequências de coisas como humilhar o nosso colega só porque é divertido e porque não nos parece nada de mal.
A construção deste livro é extremamente inteligente. A história é-nos apresentada ao contrário, começando no dia do tiroteio. Achava que o livro seria mais sobre o tiroteio em si, mas o que me foi apresentado foi muito mais interessante. Com algumas analepses e prolepses, conhecemos Peter e Josie e seu crescimento, desde melhores amigos a duas pessoas de mundos completamente separados. Aos poucos vamos percebendo os motivos de cada um e vamo-nos identificando com um e com o outro. E vamos assistindo à construção do caso contra Peter, enquanto nos enternecemos com a sua história e secretamente desejamos que ele até possa ser absolvido, mesmo que saibamos que não é justo e que o mais certo é que não venha a acontecer. Simplesmente não dá para ficar indiferente ao sofrimento de todas estas personagens, seja Peter, Josie, os seus familiares ou as vítimas do tiroteio. É tudo forte demais para ser ignorado.
Apesar de ser apenas o segundo livro da autora que leio, Jodi Picoult é com certeza uma referência no mundo do drama. Este livro traz-nos mais uma reflexão para ser feita e mais um tema que coloca em causa a nossa ética e nos obriga a parar para pensar. Mais um livro de Jodi Picoult que vale muito a pena!